top of page

A VOZ DA POETISA: ADÉLIA PRADO

Adélia Prado revela em sua poesia uma dupla confluência de forças: a do novo épico (valorização do poeta, ser humano e efêmero, de cuja presença a vida e o mundo dependem para se eternizarem no tempo) e a da liberação feminina, pós-moderna, da década de 1970 (a mulher que se afirma para além e acima da imagem na qual a tradição a aprisionara). (COELHO, 2002, p.25)

A escritora mineira Adélia Prado publicou o seu primeiro livro aos 40 anos. Intitulado Bagagem (1976), essa primeira publicação foi apadrinhada por Carlos Drummond de Andrade que, além de elogiar a autora estreante, enviou a série de poemas para a Editora Imago.

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.

Amor feinho não olha um pro outro.

Uma vez encontrado é igual fé,

não teologa mais.

Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo

e filhos tem os quantos haja.

Tudo que não fala, faz.

ACEITAR AS CONSTRADIÇÕES DA VIDA  

20220704_205815.jpg
A ESSÊNCIA DA ESSÊNCIA: O BELO, O DESEJO, O AFETO E O SENTIDO
20220704_205501_edited.jpg
20220704_205303_edited.jpg

Romance II ou do ouro incansável

Mil bateias vão rodando sobre córregos escuros;

a terra vai sendo aberta por intermináveis sulcos;

infinitas galerias penetram morros profundos.

De seu calmo esconderijo,

O ouro vem, dócil e ingênuo;

 torna-se pó, folha, barra, prestígio, poder, engenho..

 É tão claro! - e turva tudo: honra, amor e pensamento.

Borda flores nos vestidos, sobe a opulentos altares, traça palácios e pontes, eleva os homens audazes, e acende paixões que alastram sinistras rivalidades.

 Pelos córregos, definham negros, a rodar bateias.

Morre-se de febre e fome sobre a riqueza da terra:

uns querem metais luzentes, outros, as redradas pedras.

a1553445be6ceb4166e61bd9b9a810c6.jpg
8bff98b940cf69453fd5eb88ba4e0158.jpg

Romance V
Mas o que aguenta as coroas
é sempre a espada brutal.

D. João V, rei faustoso,
entre fidalgos e criados,
calcula as grandes despesas
para os festins projetados. 

61a340a5f85c07e5617a5deab74394a8.jpg
images.png

enviscar

verbo

  1. 1.

    transitivo direto

    passar visco ('seiva pegajosa') em.

    "e. um poleiro para capturar pássaros"

Oh, benignas manhãs!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado 
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Flora_And_Zephyr_(1875).jpg

Do arbusto, ó Nise, a Vénus consagrado,
Envisquei hoje um trémulo raminho;
Pousou nele este incauto passarinho,
E pelos tenros pés ficou pegado;
Então, depois de o ter na mão fechado,
Corri, dizendo alegre: eu adivinho
Que há de Nise estimar que o meu carinho
Lhe dedique este músico do prado.
Disse, e no mesmo instante a simples ave
Desata a linda voz e principia Um canto harmonioso, agudo e grave.
Ah! Por ser tua, entendo que dizia Que a prisão mais gostosa e mais suave Que a própria liberdade encontraria.

de07c6e7c60214d325ae686cdc5d5ed7.jpg
910cd0eb3a93ce63979304fc43db85ac.jpg

Vinde, Prazeres, que por entre as flores
Nos jardins de Citera andais brincando

Labirinto
medo

mudo

medalha

do medo

mudo

medi

medo

mudo

mudança

nunca tardança

dança mudança.

Labirinto

Oh montes, puras relvas, nobres pastores,

Semeai margaridas, girassóis, lírios, hortênsias

Cantai a velha canção de Aristeu, Faunos, irmã gêmea de Apolo, Syrinx.

Oh sons puríssimos, doces melodias canoras, suaves ondeantes belas harmonias,

Oh ledas esperanças, inspirados pastores arcadianos,

Cantai, cantai, cantai!

aa0d4ca87fea0278dbb64a9f8aa7145c_edited.jpg
27731e5dbfd70d7adea891af945bcc2d_edited.jpg
8fe6b593757adcb9e271e17b815ce6e0_edited.jpg

O poema e o nada;  o poema que se pergunta; não há sentido e há sentido; viva o paradoxo do sentido branco angustiante do poema

Ninho-de-caixas-de-madeira-sete-casos-truques-de-magia-palco-close-up-truque-ilus-o.jpg_Q9

Labirinto

Pintam, Nínida bela, teus cabelos dourados

Que doura o dia com os seus cachos solares

Tu´alva e delidada pele exala mil fragrâncias

Em que nascentes flores roubam de ti

Pintam, Nínida bela, tuas pernas compridas

Que se abrem sem pudor para o bruto vaqueiro

Este, contente, ao ver diamante mais precioso nunca visto antes,

suga todo o néctar contido nesta nobre e meiga flor

Labirinto
 

Uma caixa dentro de uma caixa

Outra caixinha que guarda outra caixinha

Mais uma caixinha que guarda outra caixinha

E depois de inúmeras caixas só nos resta

Uma minúscula caixa que contém a si mesmo

E guarda sufocada o seu próprio conteúdo:

Uma caixinha minúscula no final desse poemeto.

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2021 por Professor Igor Serpa. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page